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PRECISAMOS FALAR SOBRE SUICÍDIO

Written by Psicóloga Cleane Tavares de Souza – CRP 06/158028 | Jun 24, 2022 8:37:36 PM

Cleane Tavares de Souza CRP 06/158028

Suicídio. Que tema difícil, não é mesmo?

Pois bem, é difícil mesmo. Porém, nesse texto, quero compartilhar com você, leitor, como esse tema se tornou um assunto natural e comum para mim. Convido você para uma leitura simples e livre de tabus, como essa temática realmente deveria ser. Antes de compartilhar aqui minha experiencia, faz-se necessário que eu traga uma breve definição sobre a temática do suicídio.

Falar sobre suicídio na pós-modernidade ainda é um tabu e gera desconforto para muita gente, mesmo que diante dos números crescentes de suicídios, ainda há quem prefere ignorar que o fato se tornou um caso de saúde pública.

A palavra suicídio vem do latim sui (si mesmo) e cídio (ato de matar). Edwin Shneiman, considerado pai da Suicidologia, criou em 1958 o Centro de Prevenção ao Suicídio de Los Angeles. Ele é pioneiro nessa temática e foi a partir dos seus estudos que surgiram várias pesquisas no mundo. Para Shneidman, a questão central não é sobre a morte em si, e sim sobre o matar. Isso porque quem morre por suicídio – ou comete a tentativa – quer de fato matar sua dor, e não sua vida.

Irei agora narrar a minha primeira experiência relacionada ao suicídio.

Em 2018 eu estava cursando o 8° semestre de psicologia, quando tive minha primeira experiência de estágio profissional na Campanha de Prevenção ao Suicídio, disponibilizado pela Universidade em que estudava.

Éramos um grupo de sete pessoas, fizemos uma campanha linda dentro da universidade, espalhamos cartazes por todo o prédio, vestimos camisetas, criamos folhetos com mitos e verdades sobre o suicídio, organizamos rodas de conversas, fizemos plantões psicológicos. Enfim! Trabalhamos bastante e foi muito gratificante atuar neste projeto.

Esse mesmo estágio foi um divisor de águas para minha atuação enquanto psicóloga e vou compartilhar com você leitor uma experiência única vivida por mim durante essa experiência.

Em uma das rodas de conversas feita por mim e outra colega, estava presente uma senhora de aproximadamente 50 anos de idade. Durante minha fala, essa senhora me interrompeu diversas vezes, fazendo questionamentos e comentários sobre o tema abordado, e percebi uma certa fragilidade na forma como ela se colocava na sua fala.

Diante dessa minha percepção, sugeri à senhora que, se fosse possível, me aguardasse até que finalizasse aquele encontro, pois eu gostaria de falar particularmente com ela.

A mulher me aguardou prontamente e, depois que todos foram embora, ficamos somente eu e ela na sala. Não foi necessário eu falar e nem fazer questionamentos. Ela já tinha entendido que eu estava ali para escutá-la.

Foi então que ela me relatou que já havia tentado suicídio duas vezes, fazia uso de antidepressivos, mas não via melhora com os medicamentos. Relatou ainda que não fazia psicoterapia, pois não conseguia falar sobre seu sofrimento com ninguém.

Ao final de aproximadamente 90 minutos de acolhimento, essa senhora me disse a seguinte frase: “talvez, se essa conversa não tivesse existido, o amanhã não iria existir pra mim”. E você sabe por que ela falou isso para mim? Ela confessou que estava com ideação suicida e iria tentar novamente em breve.

Esse é o momento em que você, leitor, talvez me pergunte: “Cleane, o que você fez ou falou para que essa senhora tenha falado isso para você?”. E eu digo que não foi nada fácil para mim ouvir aquilo, mas eu estava preparada para acolher a dor daquela senhora enquanto falávamos sobre morte e suicídio de uma forma natural, sem julgar os motivos pelos quais ela via a morte como uma solução.

Depois de toda essa vivência, agora eu já consigo falar sobre a morte e o suicídio com a mesma naturalidade com que falo da vida. Até porque, não tem como fazer separação dessas duas grandes realidades! A vida só existe porque existe a morte, e a morte só existe, porque primeiro existe vida.

O tema suicídio se tornou tão natural para mim, que hoje sou estudiosa dessa temática e faço atendimento de pessoas que estão passando por esse momento tão complicado e de crise existencial.

Mas, por que é tão difícil para a sociedade falar sobre suicídio? Porque vai contra o que entendemos como ciclo natural da vida! A sociedade não aceita que alguém tenha pensamentos suicidas ou até mesmo o desejo real de tirar a própria vida!

É difícil falar sobre suicídio porque a morte também é vista por muitos como algo irreal, que só acontece com os outros, mas comigo e a minha família, não! A sociedade ocidental como um todo não é aberta a falar da morte e nem somos tampouco educados para a morte ou para qualquer tipo de sofrimento – o que deixa tudo ainda mais difícil de lidar quando acontece… e acontece com todo mundo, porque são ciclos naturais da vida.

Falar sobre suicídio mexe com nossa vulnerabilidade e incapacidade, somos seres que não gostamos de estar nessa posição, e que perdemos o controle. Aliás, o que é o controle senão uma triste ilusão…

De nada temos controle na vida humana! Agora, vamos imaginar… se eu não tivesse preparada adequadamente para ajudar aquela senhora da qual contei a história… se, ao invés de ouvi-la abertamente, eu tivesse julgado os motivos pelo qual ela queria morrer, se eu não tivesse dado importância para seu sofrimento… o que teria acontecido então? Acredito que, muito provavelmente, o desfecho dessa história seria outro.

Se eu tivesse feito algum julgamento moralista ou dito algo como: “mas a senhora quer se matar só por causa disso?” ou dito algum outro clichê como “valorize sua vida, tudo vai passar”… esse tipo de fala, provavelmente, não ia ajudar em nada, e poderia ainda ser um gatilho para mais uma tentativa.

O meu maior objetivo, sempre que conto esse relato, é mostrar o quanto é necessário falarmos sobre o suicídio de forma natural, sem preconceitos ou julgamentos, pois só assim esse tema deixará de ser um tabu e um assunto tão assustador.